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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Minha mente doente, aceitação e esperança



Acho que a parte mais difícil de se ter uma doença psiquiátrica é admitir exatamente isso: eu tenho uma doença. Na mente. Minha mente é doente. De verdade. Não basta mudar a maneira de pensar. Tem que tomar remédio. É doença. É crônica.

Durante muito tempo rejeitei o tratamento com medicamentos, porque sempre achei que só tinha uma simples depressão que dava pra ir levando. Era só olhar o lado bom da vida, count your blessings, ter Deus no coração. Era só ficar tranquila que ia passar.

Esperei. Esperei passar e ficou mais pesado a cada dia. Ficou tão pesado que eu não consegui sair da cama algumas vezes. E eu juro que me esforcei pra pensar “vamos lá, Maria, você consegue sobreviver a esse dia”. Juro que pensei “Deus te deu mais uma oportunidade de fazer a coisa certa, vamos!”. O problema é que não adianta quando esses pensamentos são atropelados por outros que dizem que não vai dar certo, que insistem em pegar os problemas e transformá-los em monstros gigantes.

A maneira que a minha mente funciona não é nada saudável. Quando há um problema, alguma situação desagradável, ela já pega e imagina milhares de hipóteses que, apesar de não haver prova alguma que poderiam ser reais, se tornam realidade para os meus sentimentos. E aí vem a raiva, o ódio, a dor. Mesmo que todo mundo diga que não é assim, que não é verdade, mesmo que todos contrariem minha mente, é ela quem dita o jogo, no fim das contas. Basicamente a minha mente me trai, me conta mentiras doloridas e eu acredito.

Dica de leitura: Realidade ou fantasia? Por Silvia Tereza B. Pieroni Pereira, gestalt-terapeuta

E é aí que entram os remédios. Porque uma mente doente significa que a química no cérebro tá funcionando de uma maneira meio louca, meio fora de ordem, meio errada. Assim como qualquer desequilíbrio em qualquer órgão, os desequilíbrios no cérebro precisam de medicamentos. Algumas vezes só durante alguns anos, outras vezes pode ser para a vida toda.

E é difícil conviver com isso, com essa coisa de ter que tomar um remédio pra um problema mental. Quer dizer, o problema tá na mente, não no corpo físico, não no coração, não no pulmão, não em qualquer outro lugar onde as pessoas achariam completamente normal o uso de remédios. E, querendo ou não, o paciente que lida com uma doença desse tipo não consegue compreender isso, porque passou a vida inteira ouvindo que o problema mental é, bem... na mente, e pode ser resolvido simplesmente mudando a mente.

Acontece que pra mudar a mente, tem que mudar a química do cérebro. E quando isso muda, as coisas vão ficando um pouco diferentes.

Lembro de quando tomei antidepressivos e estabilizadores de humor anos atrás. O que eu lembro daquela época é, basicamente, nada. Porque eu não senti tanto, porque eu não pensei tanto, porque eu não agi desesperadamente como sempre faço. Quem sabe, para os outros, naquela época eu era uma pessoa “normal” mas, pra mim, eu era uma pessoa que eu não conheço.

E é exatamente isso que tá acontecendo de novo. Minha mente está ficando mais quieta, sinto menos raiva e tristeza e, embora isso seja muito bom, confesso que tenho medo de voltar a ser como naquela época. Eu olho pra trás e vejo uma Maria que eu não reconheço como sendo eu. Porque ela não era doente, porque ela era mais tranquila, não pensava tanto, não sentia tanta dor.

O problema é que eu me acostumei com a dor. Eu me acostumei a ser a minha doença. E agora que as coisas estão ficando bem, agora que a minha mente funciona normalmente, eu posso ver mais claramente quem eu sou, ou pelo menos quem eu quero ser.

Sou tímida com quem não conheço, mas costumo ser bem aberta com as pessoas que conheço e considero. Às vezes eu falo umas coisas engraçadas. Gosto de ficar sozinha. Espero ser tão divertida para as outras pessoas quanto sou pra mim mesma. Gosto de ajudar os outros, de escrever e de cantar. Quero fazer dança ou teatro. Quero montar uma banda.

São coisas que já sabia, que já tenho em mente há muito tempo, mas que os diversos pensamentos encobriam como se fossem nuvens cobrindo o sol. De fato, a doença é isso mesmo: nuvens que cobrem o sol (que, no caso, seria a verdadeira Maria).

Mas essa verdadeira Maria é tão estranha e nova pra mim que eu não sei nem como chegar nela. Devo dizer olá, prazer, eu sou você mas ainda não totalmente?

Eu sei lá o que eu vou fazer de agora em diante. Só queria deixar registrado aqui que eu finalmente aceitei. Aceitei que eu tenho uma doença crônica na mente e que preciso tratá-la, muito provavelmente durante todo o resto da minha vida, e que algumas coisas vão mudar no meu comportamento e eu vou ter que aprender um pouco mais sobre quem eu sou. Isso pode não ser fácil, pois terei que deixar pra trás quem eu era. E isso dá medo.

De qualquer maneira, estou ansiosa pra essa nova “fase” da minha vida.

Quem é a Maria além da doença? Veremos.

8 comentários

  1. Já tive pensamentos assim, e tive ainda depressão (¬¬)
    Mais como colocou as palavras, me fez entender coisas que não entendia, algo que somente eu entenderia sabe? Obrigada, isso me ajudou a me desvendar um pouco heuehe ^^


    Sou a Mikah, e estou aqui para te convidar a seguir meu blog MUNDO MIKAS, retribuo de volta meu amor, até pq entrei recente nesse mundo (de novo) e estou voltando para compartilhar tudo de kawaii para meus leitores, ajuda?
    Obrigada (=゜ω゜)

    http://mundo-mikas.blogspot.com

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    1. Onde fica o botão para seguir ? ¬¬ hauaha

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    2. Pior que não tem, não sei instalar! D:

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  2. Olar amorzinha da minha vida! <3 Cê não faz ideia da consideração que tenho por você! Ainda mais por perceber que passamos por problemas semelhantes... Eu ainda não cedi aos remédios, mas já fui encaminhada pro Psiquiatra algumas vezes. É que eu acho que o problema geral não é na gente, é nesse mundo louco que a gente vive. Somos bombardeados de informações, de "seja isso" e "seja aquilo"... e cada um (organismo) encontra sua forma de se defender disso. Bom, como sempre digo, precisando conversar, estou aqui. <3

    4sphyxi4.blogspot.com.br

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  3. Love the style of your blog! Wish you Happy Holidays!
    I`m following ur blog with a great pleasure
    Please join me
    Sunny Eri: beauty experience

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  4. Ei garota, seu texto é muito envolvente. Você é muito envolvente. Me prendeu, sem mentira alguma, na primeira frase. Não te conheço muito bem, mas sei que deve continuar fazendo o que faz.
    Eu amei! :)

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  5. OOOOOOOOOOI!

    Então... sempre que venho aqui, é inevitável fazer textão, mas vamo lá:

    Rola demais uma identificação minha com você. Eu também sou doente "da cabeça" e foi difícil aceitar isso enquanto eu mesma - e pior ainda foi a aceitação das pessoas de casa. Eu me culpava por ser diferentona. Eu achava que era menos merecedora da vida por ser assim. Mas depois as coisas mudaram um pouco...
    Eu não aceitei remédios por um tempo. Depois aceitei e eles me tornaram um robô que dormia e comia e se movimentava no automático.Por isso desisti dos remédios e nãoqueria de jeito nenhum tomar nada. Mas dai acabei encontrando a médica certa, que passou o remédio certo e hoje eu consigo ser uma versão melhor de mim mesma. Já pensou que se você não sentir nada como na fase anterior, é porque provavelmente a medicação não é pra você? Por isso reclame, peça pra mudar, vá tentando até se encaixar com uma substância e se sentir bem com ela. E quando isso encaixa, o remédio nos torna super heroínas: A melhor versão imbatível de nós mesmas. A medicação é canalização de poder, gata. Somos quase as meninas super poderosas HAHAHAH o/

    Também me convenci de que vou ter de tomar remedinho a vida toda: Meu problema não é de 1 mes, 1 ano, 1 tempo qualquer e vai passar. Creio ser genético, defeito de fábrica. Então se é assim, vamo lá. Tipo ser hipertenso: Tem que tomar o coiso todo dia pra nao ficar mal.Mesma coisa com a gente. Mas... Canalizar poder, sempre lembre disso.

    Eu tinha problemas comigo mesma por nao gostar do que eu era. Dai descobri que a minha doença tava encobrindo o sol. Eu na verdade sou muito legal, só tava infectada por um bichinho dumal que me tornava tipo o homem-aranha preto (ce lembra do homem-aranha 3? que tinha o da roupavermelha e da roupa preta? espero que entenda a referência HAHAHAHA).

    As coisas vão clarear. Se não clarearem, exija outro método pro sol sair, nao fique de guarda-chuva esperando. Encha o saco até o sol sair e brilhar!

    beijo
    beinghellz.com




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  6. Oi, Maria! <3

    Que você consiga se encontrar e ser feliz na nova fase, na "nova Maria", fiquei feliz de ler esse post e ver que o fato de você ter aceitado a doença aparentemente é algo que vai te ajudar bastante. Vim aqui para te desejar boas festas, um 2017 de muita luz!

    Beijos <3

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